A travessia solo do Atlântico transformou Tamara Klink em uma das jovens navegadoras brasileiras mais conhecidas e inspirou o fio condutor de Inovar é um Parto. Seus relatos sobre medo, coragem, sonho e liberdade ajudam a conectar o oceano às jornadas das empreendedoras retratadas no documentário.

“Quantas mães choraram, quantas noivas ficaram por casar para que fosses nosso, ó mar!”.

É a partir dos versos de Mar Português, de Fernando Pessoa, que Tamara Klink provoca uma reflexão sobre o lugar historicamente reservado às mulheres nas grandes travessias marítimas.

Durante muito tempo, as histórias de exploração e navegação foram protagonizadas por homens. As mulheres estavam no cais, não no comando dos barcos.

Tamara cresceu cercada por histórias do mar. Filha do navegador Amyr Klink, ouvia desde criança relatos de viagens e aprendeu cedo que atravessar oceanos era possível. Queria navegar também. Mas transformar esse desejo em um projeto próprio exigiria encontrar seu caminho.

Quando o sonho vira plano

Para Tamara, existe uma diferença importante entre ter um sonho e transformá-lo em plano.

“O sonho não nos abandona, por mais que a gente deixe para depois.”

O sonho pode resistir ao tempo. O plano é mais frágil. Quando começou a preparar suas viagens, Tamara percebeu que precisava protegê-lo das dúvidas externas e das próprias inseguranças.

Nem todos ao seu redor acreditavam que deveria partir. Ao buscar apoio para viabilizar o projeto, também ouviu muitos nãos. Havia quem enxergasse mais o risco de uma jovem sozinha no oceano do que sua capacidade de realizar a travessia.

Em vez de abandonar o projeto, Tamara continuou a construí-lo.

Em 2020, aos 23 anos, comprou na Noruega um veleiro de oito metros, que batizou de Sardinha. Sozinha, navegou pelo Mar do Norte em direção à França, onde estudava arquitetura naval.

Era o início de uma relação com o oceano que transformaria também sua relação com o medo.

A coragem mora na borda do medo

Para Tamara, coragem não significa ausência de medo.

“A coragem mora na borda do medo.”

No mar, o medo a acompanhava. Havia decisões a tomar, condições que mudavam, equipamentos que podiam falhar e momentos em que não era possível saber exatamente o que viria depois.

A experiência ensinou que não era preciso eliminar a incerteza para continuar avançando.

Tamara percebeu também que seus planos precisavam se adaptar à realidade. As condições e oportunidades encontradas durante o percurso muitas vezes eram diferentes das que havia imaginado.

“Eu me atinha muito aos ‘o quês’, o que eu queria, e aos ‘comos’, como eu ia fazer para chegar lá.”

Com o tempo, outra pergunta ganhou importância: por quê?

Entender por que queria realizar aquela jornada permitia mudar o caminho sem abandonar aquilo que a havia levado até ali.

Escrever para atravessar

O Sardinha não foi a única companhia de Tamara durante suas primeiras viagens. A escrita ocupou um lugar importante no barco.

Longe das referências cotidianas e diante de longos períodos sozinha, ela passou a registrar experiências, pensamentos, desenhos e poemas.

“Os textos eram minha tábua de salvação em muitos momentos. A poesia me dava liberdade. Eu me tornava menos vítima e mais protagonista enquanto eu escrevia.”

A experiência também se transformou em literatura. Em Mil Milhas, Tamara reuniu relatos, reflexões e desenhos de sua primeira grande viagem solo.

Navegar e escrever passaram a fazer parte de um mesmo processo: observar o mundo ao redor e, ao mesmo tempo, compreender o que acontecia dentro dela.

Sozinha pelo Oceano Atlântico

Em 2021, Tamara partiu para um desafio maior.

A bordo do Sardinha, navegou pela costa europeia, passou pelas Ilhas Canárias e por Cabo Verde. Dali iniciou o trecho que a levaria até o Brasil.

Foram 17 dias sozinha entre Cabo Verde e Recife. Em novembro de 2021, aos 24 anos, Tamara chegou ao Brasil e tornou-se a mais jovem brasileira a realizar uma travessia solo do Oceano Atlântico.

No meio do oceano, a solidão ganhou outro significado. Sem as referências habituais da vida em terra, a atenção se voltava para o barco, o vento, as nuvens, as correntes e o movimento do mar.

Era preciso observar, decidir e adaptar-se.

E continuar.

O risco e a liberdade

Ao longo de suas travessias, Tamara passou a olhar para o risco de outra maneira.

Assumir riscos não significava lançar-se irresponsavelmente ao desconhecido. Significava reconhecer aquilo que não podia controlar, preparar-se para o que era possível e aceitar que qualquer escolha importante carrega alguma incerteza.

Em um dos textos que atravessam Inovar é um Parto, essa ideia aparece de maneira direta:

“O risco é o gerador da liberdade.”

A liberdade, nessa perspectiva, não surge da ausência de perigo ou de medo. Ela nasce da possibilidade de escolher um caminho e assumir responsabilidade pela própria travessia.

Essa experiência também mudou a maneira como Tamara enxergava o lugar das mulheres no mar.

“Eu espero muito que seja normal as mulheres navegarem tanto na terra como no mar, e serem comandantes das suas próprias travessias, dos seus próprios barcos.”

A travessia de Tamara Klink inspira o fio condutor de Inovar é um Parto, documentário dirigido por Patricia Travassos e produzido pela Prosa Press.

Seus relatos, reflexões e textos poéticos aparecem ao longo do filme e ajudam a construir a metáfora que conecta a navegação às jornadas das mulheres empreendedoras retratadas.

A relação não está apenas na coragem de assumir riscos. O documentário aproxima essas experiências por meio de ideias como sonho, planejamento, medo, incerteza, adaptação, vulnerabilidade e transformação.

Assim como no mar, empreender significa muitas vezes avançar sem conhecer completamente o caminho. Há correntes que dificultam o movimento, mudanças de rota, momentos de solidão e decisões que precisam ser tomadas antes que todas as respostas estejam disponíveis.

Em determinado momento do filme, uma das personagens resume a dimensão da experiência de Tamara:

“O barco é pequeno, mas a jornada com certeza não foi pequena.”

É nesse sentido que sua história atravessa Inovar é um Parto. Não como uma história paralela às das empreendedoras, mas como uma imagem que ajuda o documentário a refletir sobre o que acontece quando alguém decide transformar um sonho em plano e começar uma travessia sem saber exatamente o que encontrará pelo caminho.

A travessia continua

A chegada ao Brasil não encerrou as viagens de Tamara.

Nos anos seguintes, ela continuou navegando, voltou ao Atlântico Norte e ampliou os limites de suas expedições. Em 2025, completou sozinha a Passagem Noroeste, entre a Groenlândia e o Alasca, tornando-se a primeira mulher latino-americana e a pessoa mais jovem a realizar a rota em solitário.

Mudaram os barcos, as distâncias e os desafios. A relação entre navegação, escrita, medo e liberdade continuou acompanhando sua trajetória.