O Brasil chegou a 10,4 milhões de mulheres donas de negócios. Mas a presença feminina diminui quando o olhar se volta para startups e empresas de tecnologia. A diferença entre esses dois mundos foi uma das questões que deram origem ao documentário Inovar é um Parto.

Quando começou a pesquisa que daria origem a Inovar é um Parto, em 2019, uma contradição chamou a atenção da diretora Patricia Travassos e da equipe da Prosa Press.

As mulheres já ocupavam um espaço expressivo no empreendedorismo brasileiro. Naquele ano, chegaram a representar 34,8% dos donos de negócios, então o maior percentual da série histórica acompanhada pelo Sebrae. 

Mas bastava mudar a lente e olhar para o universo das startups para encontrar outra realidade.

A presença feminina entre fundadores era muito menor e não predominava em nenhum dos principais segmentos de startups analisados naquele período. Em fintechs, por exemplo, mulheres representavam 11% dos sócios; em agtechs, 13%; em healthtechs, 17%; e em edtechs, 21%, segundo levantamento do Distrito publicado em 2019. 

A pergunta que surgia era simples: se tantas mulheres estavam empreendendo, por que tão poucas apareciam entre as fundadoras dos negócios associados à tecnologia, inovação e crescimento acelerado?

Essa pergunta ajudaria a colocar Inovar é um Parto em movimento.

Empreender não significava necessariamente inovar

Havia outra diferença importante naquele retrato.

Grande parte das mulheres empreendedoras estava concentrada em atividades de serviços e comércio. Beleza, vestuário, alimentação, cosméticos e confecção estavam entre as atividades com forte presença feminina. Esse padrão continuaria aparecendo nos levantamentos posteriores do Sebrae. 

Isso não torna esses negócios menos importantes.

Mas revelava uma questão diferente: as mulheres estavam empreendendo, porém tinham participação muito menor justamente nos ambientes em que se concentravam tecnologia, inovação, capital de risco e possibilidade de crescimento em escala.

Foi nesse espaço que a pesquisa de Inovar é um Parto procurou suas personagens.

Em vez de perguntar apenas por que havia poucas mulheres, o documentário foi atrás daquelas que já estavam construindo negócios diferentes.

As mulheres que estavam atravessando essa fronteira

Foi assim que surgiram histórias como a de Camila Achutti, fundadora da Mastertech, na educação e tecnologia; Tatiana Pimenta, fundadora da Vittude, na saúde mental; Fernanda Ribeiro, cofundadora da Conta Black, na inclusão financeira; Daniela Leite, fundadora da Comida Invisível, no combate ao desperdício de alimentos; e Dani Junco, fundadora da B2Mamy, no ecossistema de maternidade, carreira e empreendedorismo.

Os setores eram diferentes.

O que aproximava essas mulheres era a tentativa de transformar problemas que conheciam em soluções capazes de ganhar escala.

Inovar é um Parto acabou encontrando aí uma história maior do que a diferença estatística entre homens e mulheres.

Encontrou mulheres entrando em territórios nos quais historicamente apareciam muito menos.

Sete anos depois, o cenário mudou

Voltar a essa pergunta em 2026 produz um resultado interessante.

O Brasil encerrou 2025 com 10,4 milhões de mulheres donas de negócios, maior número da série histórica. Em dez anos, o contingente cresceu 27%. Mesmo assim, mulheres representam 34,3% dos donos de negócios, apesar de serem maioria na população em idade ativa. 

Também houve uma mudança importante na criação de empresas. Mais de 2 milhões de pequenos negócios liderados por mulheres foram abertos somente em 2025, cerca de 42% do total de novos pequenos negócios daquele ano. 

E o universo das startups apresenta hoje uma fotografia bastante diferente daquela encontrada durante a pesquisa do filme.

Segundo o Observatório Sebrae Startups, 31% das mais de 18 mil startups de sua base tinham uma mulher como fundadora em 2025. O próprio Sebrae compara esse resultado aos 8,65% registrados em sua base em 2023. 

É uma mudança relevante.

Mas exige uma ressalva: esses percentuais não devem ser comparados diretamente como se fossem uma única série histórica, porque levantamentos de diferentes instituições utilizam bases, amostras e definições distintas.

Ainda assim, apontam para uma transformação difícil de ignorar: mulheres estão ocupando mais espaço no ecossistema brasileiro de inovação.

Crescer em número não elimina as diferenças

A quantidade de empreendedoras, entretanto, conta apenas parte da história.

As mulheres continuam representando pouco mais de um terço dos donos de negócios. Também trabalham menos horas semanais em suas empresas e recebem menos do que os homens à frente de negócios, apesar de apresentarem escolaridade média superior. Dados recentes do Sebrae associam parte dessa diferença à maior carga de trabalho doméstico e de cuidado assumida pelas mulheres. 

No universo de startups, outras questões entram na equação: formação tecnológica, acesso a redes de relacionamento, investidores, crédito e capital de risco.

Portanto, talvez a pergunta tenha mudado.

Em 2019, uma das questões que ajudaram a provocar Inovar é um Parto era: onde estão as mulheres fundadoras de startups?

Em 2026, elas estão muito mais visíveis.

A questão agora é entender que empresas estão construindo, quanto conseguem crescer, quanto capital conseguem acessar e se estão chegando aos espaços onde são tomadas as decisões sobre tecnologia e inovação.

Essa transformação não acontece apenas no universo das startups. Em outros setores historicamente associados à presença masculina, as mulheres também vêm ampliando seu espaço como empreendedoras, gestoras e lideranças. O agronegócio é um desses territórios. Essas transformações estão no centro de Mulheres no Agro, novo documentário da Prosa Press que acompanha trajetórias de mulheres que empreendem e constroem seu espaço no agronegócio brasileiro, com lançamento previsto para 2026.

Uma pergunta que continua aberta

Inovar é um Parto registrou um momento dessa transformação.

As empreendedoras retratadas no documentário mostravam que saúde mental, inclusão financeira, alimentação, educação, maternidade, diversidade e sustentabilidade também poderiam ser territórios para inovação e criação de negócios escaláveis.

Sete anos depois do início daquela pesquisa, os números mostram avanços importantes.

Mas mostram também por que ainda faz sentido acompanhar o empreendedorismo feminino não apenas pela quantidade de empresas abertas por mulheres.

A próxima fronteira é entender que negócios essas mulheres conseguem construir, até onde conseguem levá-los e qual espaço ocupam na economia da inovação.