Cientista da computação, empreendedora e fundadora da Mastertech, Camila Achutti tornou-se referência na defesa de uma tecnologia mais acessível. Sua trajetória conecta educação, empreendedorismo e a busca por maior participação das mulheres na criação das soluções digitais.
As mulheres usam a internet tanto quanto ou até mais do que os homens no Brasil. Em 2025, 91,1% das mulheres brasileiras com 10 anos ou mais utilizaram a internet, segundo o IBGE.
Mas utilizar tecnologia é diferente de participar de sua criação.
Quando o olhar se volta para profissionais especializados em Tecnologia da Informação, a desigualdade aparece com clareza. Segundo o estudo W-Tech 2025, do Observatório Softex, as mulheres representam apenas 19,2% dos especialistas em TI no Brasil.
É justamente nessa distância entre usar tecnologia e ter condições de criá-la que se insere boa parte da trajetória de Camila Achutti.
Quando a tecnologia se torna uma nova desigualdade
Cientista da computação, Camila começou a perceber a desigualdade de gênero na tecnologia ainda na universidade.
Em uma área predominantemente masculina, entendeu que aprender a programar significava adquirir uma capacidade que iria muito além do domínio de uma linguagem técnica: permitia criar produtos, empresas e soluções.
Essa percepção despertou uma pergunta que acompanharia sua trajetória profissional: por que tão poucas mulheres tinham acesso a esse conhecimento?
Para Camila, a tecnologia deveria funcionar como instrumento de criação e transformação. Quando o acesso ao conhecimento tecnológico fica concentrado em determinados grupos, porém, ela pode reproduzir desigualdades que já existem na sociedade.
A questão ganhou importância à medida que praticamente todos os setores da economia passaram a depender de sistemas digitais, dados, software e, mais recentemente, inteligência artificial.
Não participar da criação dessas tecnologias significa também ter menor participação na definição de como elas serão utilizadas.
Mulheres na Computação
Ainda durante sua formação, Camila criou o Mulheres na Computação, iniciativa pioneira dedicada a discutir a presença feminina na área.
O projeto nasceu da experiência de estar em ambientes nos quais havia poucas mulheres e se transformou em espaço para compartilhar histórias, discutir carreira e incentivar outras jovens a considerar a computação como possibilidade profissional.
A iniciativa ajudou a tornar Camila uma das vozes brasileiras ligadas à participação feminina na tecnologia.
Em 2015, ela recebeu o prêmio Women of Vision, na categoria Student of Vision, tornando-se a primeira estudante latino-americana a receber a distinção.
O reconhecimento estava relacionado justamente ao trabalho de incentivar mulheres e meninas a participar do universo da computação.
Da programação à Mastertech
A experiência com educação e tecnologia também levou Camila ao empreendedorismo.
Ela fundou a Mastertech, organização educacional criada em 2015 e que ampliou sua atuação ao longo dos anos.
Se inicialmente programação e competências digitais ocupavam posição central, hoje a Mastertech trabalha com formação e desenvolvimento de competências relacionadas a tecnologia, transformação digital, inteligência artificial, pensamento crítico e novas formas de trabalho.
Camila continua à frente da empresa como fundadora e CEO.
A ideia que atravessa essa trajetória permanece semelhante: tecnologia não deveria ser conhecimento restrito a especialistas.
Compreender como ela funciona permite não apenas utilizá-la, mas participar da criação de produtos, negócios e soluções.
Tecnologia como meio, não como fim
Esse pensamento ajuda a compreender uma das ideias centrais defendidas por Camila ao longo de sua trajetória: tecnologia deve ser tratada como ferramenta.
Programar, compreender dados ou saber trabalhar com inteligência artificial não são necessariamente objetivos finais. São capacidades que podem ampliar as possibilidades de uma pessoa resolver problemas, desenvolver uma carreira ou criar um negócio.
Essa diferença se torna especialmente relevante para mulheres.
Quando um grupo participa pouco da criação de tecnologia, não está apenas sub-representado em um mercado profissional. Também participa menos da construção das ferramentas que irão influenciar outros setores da economia e da sociedade.
Por isso, ampliar a presença feminina na tecnologia envolve duas dimensões: criar oportunidades profissionais e aumentar a diversidade entre as pessoas que desenvolvem as soluções digitais.
O desafio continua
A presença das mulheres na tecnologia avançou, mas a diferença permanece significativa.
O estudo W-Tech 2025 estima que as mulheres correspondem a apenas 19,2% dos especialistas em TI no Brasil, embora representem mais da metade da população brasileira.
Ao mesmo tempo, o uso da internet já está amplamente disseminado entre as mulheres.
O contraste é importante: o problema não está simplesmente no acesso às ferramentas digitais, mas também no acesso ao conhecimento e às oportunidades necessárias para participar de sua criação.
Com inteligência artificial, automação e sistemas digitais ocupando um espaço cada vez maior nas empresas e na vida cotidiana, essa discussão ganha uma nova dimensão.
A pergunta deixa de ser apenas quem sabe programar.
Passa a ser também: quem participa da construção das tecnologias que irão definir como trabalhamos, consumimos, aprendemos e nos relacionamos?
Camila Achutti em Inovar é um Parto
Camila Achutti é fundadora e CEO da Mastertech e uma das personagens de Inovar é um Parto, documentário dirigido por Patricia Travassos e produzido pela Prosa Press.
Sua participação no filme amplia a discussão sobre empreendedorismo feminino ao colocar a tecnologia no centro de uma questão que atravessa diferentes histórias do documentário: quem tem acesso às ferramentas necessárias para transformar uma ideia em solução?
A trajetória de Camila mostra que democratizar a tecnologia não significa apenas ampliar o número de pessoas que utilizam dispositivos ou acessam a internet.
Significa criar condições para que mais pessoas possam compreender, criar e decidir os rumos da tecnologia.
Para as mulheres, essa participação também significa ocupar um espaço historicamente masculino e aumentar a diversidade entre aqueles que imaginam as soluções que farão parte do futuro.



