Produtora e empreendedora, Daniele Alkmin criou a Agrorigem para conectar produtores de cafés especiais a novos mercados. Sua trajetória também ajudou a fortalecer uma rede de mulheres que ganhou espaço na cafeicultura da Mantiqueira de Minas.
O café faz parte da história de Daniele Alkmin desde a infância. Integrante da quinta geração de uma família de cafeicultores de Santa Rita do Sapucaí, no sul de Minas Gerais, ela cresceu próxima à produção, mas seguiu inicialmente outro caminho profissional.
Anos depois, ao retornar ao universo do café, encontrou um setor em transformação e percebeu uma oportunidade: agregar valor aos cafés especiais e aproximar pequenos produtores de compradores dispostos a reconhecer qualidade, origem e história.
Essa percepção daria origem à Agrorigem, empresa criada para conectar produtores de cafés especiais ao mercado por meio de tecnologia, rastreabilidade e novas formas de comercialização.
Do café commodity ao café especial
O Brasil continua ocupando uma posição central na cafeicultura mundial. Em 2026, a produção brasileira deve alcançar 67,6 milhões de sacas beneficiadas, segundo estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento, a maior da série histórica da Conab.
Mas volume não é a única forma de gerar valor no café.
Na região da Mantiqueira de Minas, produtores passaram a investir cada vez mais na qualidade dos grãos, na identificação de origem, na rastreabilidade e na comercialização de cafés especiais.
Foi nesse ambiente que Daniele identificou uma oportunidade.
A venda tradicional nem sempre permitia ao produtor capturar o valor associado à qualidade de determinados lotes. Aproximar quem produz de quem compra poderia abrir novos mercados e melhorar a remuneração pelo café.
Em 2019, Daniele criou a Agrorigem – The Coffee ID com seus sócios. A empresa nasceu em Santa Rita do Sapucaí e passou por um processo de incubação no Inatel, instituição ligada ao ecossistema de tecnologia da cidade.
Tecnologia para aproximar produtor e mercado
A Agrorigem desenvolveu uma plataforma para conectar produtores de cafés especiais a compradores.
A proposta é reduzir distâncias dentro da cadeia e dar mais visibilidade a informações como origem, características do lote e identidade de quem produz.
Na prática, a tecnologia funciona como ferramenta para algo essencial no mercado de cafés especiais: transformar qualidade e origem em valor percebido pelo comprador.
A empresa também atua na conexão dos cafés brasileiros com mercados internacionais.
Para pequenos produtores, essa aproximação pode representar acesso a compradores que dificilmente seriam alcançados individualmente.
A inovação, nesse caso, não acontece apenas dentro da lavoura. Está também na maneira de comercializar o que é produzido.
Quando as mulheres começam a ocupar mais espaço
A trajetória de Daniele também se cruza com outra transformação da cafeicultura: a maior visibilidade das mulheres dentro da cadeia produtiva.
No documentário Inovar é um Parto, ela conta como um pequeno grupo começou a se reunir em Santa Rita do Sapucaí:
“A cada semana entrava uma no grupo. Fomos tomando força.”
O movimento iniciado por poucas produtoras cresceu e se transformou na Associação Mulheres Empreendedoras do Café de Santa Rita do Sapucaí.
A rede reúne mulheres que atuam em diferentes pontos da cadeia do café e promove capacitação, troca de conhecimento, desenvolvimento profissional e novas oportunidades de negócios.
Daniele tornou-se presidente da associação, ampliando uma atuação que já não estava restrita à sua própria empresa.
A experiência mostra a importância das redes para aumentar a presença das mulheres em um setor no qual elas sempre trabalharam, mas nem sempre tiveram a mesma visibilidade como proprietárias, gestoras e tomadoras de decisão.
Mulheres ainda são minoria na direção das propriedades
Os números ajudam a dimensionar essa diferença.
Segundo o Censo Agropecuário de 2017, do IBGE, aproximadamente 19% dos produtores responsáveis pela direção dos estabelecimentos agropecuários eram mulheres. Em 2006, essa participação era de cerca de 13%.
Na cafeicultura, a diferença também permanece. Dados reunidos pela própria Agrorigem indicam que mais de 40 mil estabelecimentos brasileiros produtores de café são dirigidos por mulheres, correspondendo a pouco mais de 13% do total.
A participação feminina cresceu, portanto, mas ainda está distante de uma situação de equilíbrio.
E ocupar esses espaços nem sempre é simples.
Quando ser mulher interfere no negócio
Daniele viveu essa barreira diretamente.
Durante uma negociação internacional, percebeu que um potencial comprador preferia conversar com seu pai, também envolvido na empresa, mesmo sendo ela a responsável pela negociação.
“Quando meu pai, sócio da empresa, chegou, eles ficaram conversando e eu de escanteio.”
O pai orientava o comprador a tratar do assunto com Daniele, mas ela continuava sendo ignorada. Ao final, o potencial cliente chegou a dizer que não compraria o café dela se não conhecesse seu pai.
O negócio não foi fechado.
A experiência mostra uma dificuldade que não aparece nas planilhas de uma empresa: ser reconhecida como a pessoa que ocupa efetivamente uma posição de liderança.
Um café produzido por mulheres
A valorização das produtoras também ganhou espaço dentro da própria Agrorigem.
O Agrorigem By Woman identifica lotes produzidos por mulheres e busca dar visibilidade à história de quem está por trás de cada café.
São produtoras com trajetórias diferentes. Algumas assumiram propriedades por sucessão familiar. Outras chegaram à atividade depois de experiências profissionais em outros setores. Há ainda mulheres que passaram a administrar as propriedades depois da morte do marido ou que escolheram a cafeicultura como projeto de vida.
O ponto em comum é tornar visível uma participação que durante muito tempo esteve presente no trabalho cotidiano das propriedades, mas nem sempre aparecia no reconhecimento econômico e profissional.
A iniciativa conecta essa história a uma característica cada vez mais valorizada no mercado de cafés especiais: saber não apenas de onde vem o café, mas também quem o produziu.
Da Mantiqueira para outros mercados
O que começou como uma oportunidade identificada em Santa Rita do Sapucaí ganhou novas dimensões.
A Agrorigem ampliou sua atuação no mercado de cafés especiais e continua conectando produtores a compradores no Brasil e no exterior. Paralelamente, a rede de mulheres da cafeicultura da região se fortaleceu, promovendo encontros, capacitação e conexões comerciais.
A própria trajetória de Daniele passou a reunir diferentes papéis: produtora de café, empreendedora, executiva da Agrorigem e liderança de uma rede de mulheres ligadas à cafeicultura.
São movimentos que apontam para uma mudança importante no campo.
Inovação no agronegócio não significa apenas novas máquinas ou tecnologias de produção. Pode estar na forma de comercializar, na rastreabilidade, na construção de uma marca, na criação de redes e na capacidade de identificar valor onde antes o mercado enxergava apenas uma commodity.
Assista ao episódio de Inovar fora do eixo com Daniele Alkmin



