Fernanda Ribeiro, Janine Rodrigues e Jéssica Cardoso transformaram experiências com o racismo e problemas pouco atendidos pelo mercado em negócios voltados à inclusão financeira, educação antirracista e acessibilidade.

“O crédito é negado quatro vezes mais para um empreendedor negro comparado ao empreendedor branco, exatamente nas mesmas condições.”

A afirmação de Fernanda Ribeiro, cofundadora e CEO da Conta Black, expõe uma das barreiras enfrentadas por empreendedores negros no Brasil: o acesso ao capital.

Mas a desigualdade não se limita ao crédito. Ela aparece no mercado de trabalho, na educação, no acesso à tecnologia, nos espaços de decisão e até na capacidade de transformar uma boa ideia em um negócio sustentável.

Fernanda Ribeiro, Janine Rodrigues, fundadora da Piraporiando, e Jéssica Cardoso, fundadora da InterPrêta, encontraram nesse cenário não apenas obstáculos, mas problemas que decidiram enfrentar por meio do empreendedorismo.

São negócios diferentes, criados a partir de experiências distintas, mas conectados por uma mesma questão: como transformar desigualdades vividas pela população negra em soluções capazes de gerar inclusão, trabalho, renda e oportunidades?

Quando o acesso ao crédito também é uma questão racial

A Conta Black nasceu em 2017 com a proposta de ampliar o acesso da população negra e periférica a serviços financeiros.

No documentário Inovar é um Parto, Fernanda explica que a empresa surgiu em um contexto de escassez, mas com a intenção de construir abundância.

“A Conta Black nasce dentro de uma perspectiva de escassez e a gente vem buscando abundância desde o day one.”

A dificuldade de conseguir financiamento é particularmente relevante para pequenos empreendedores. Sem acesso a crédito ou investimento, muitos recorrem ao próprio patrimônio, à família ou a amigos para colocar um negócio de pé.

Para Fernanda, essa desigualdade também está relacionada à baixa diversidade entre as pessoas que decidem quais empresas, ideias e empreendedores receberão recursos.

O problema se torna ainda mais evidente quando se observa o tamanho da população potencialmente afetada. Segundo o Censo Demográfico de 2022, pessoas pretas e pardas representam cerca de 56% da população brasileira.

Por isso, Fernanda questiona a própria ideia de tratar produtos voltados à população negra como produtos destinados a um nicho.

“Nós estamos num país onde 57% da população é negra. Então qualquer produto ou serviço criado pensando nesse nicho… não é um nicho, é a maioria.”

A fala registrada durante a produção do documentário ajuda a deslocar a discussão: inclusão não é apenas uma questão social. Também existe um mercado que historicamente não recebeu a mesma atenção de empresas e instituições financeiras.

Da escassez à criação de oportunidades

A Conta Black trabalha com serviços financeiros e educação financeira voltados especialmente a públicos que encontram mais barreiras no sistema tradicional.

A lógica também se relaciona ao conceito de Black Money, movimento que busca fortalecer a circulação de recursos entre empreendedores, profissionais e consumidores negros.

Mais do que simplesmente estimular o consumo dentro da comunidade, a ideia é fortalecer negócios, ampliar oportunidades e contribuir para que mais recursos gerem trabalho e renda.

Para Fernanda, propósito e sustentabilidade financeira precisam caminhar juntos.

“Nós não escolhemos entre propósito e lucratividade. Obviamente, para manter a sustentabilidade, ele precisa dar lucro. Mas a gente quer também gerar um propósito.”

Essa combinação é importante para compreender o empreendedorismo de impacto retratado em Inovar é um Parto. Resolver um problema social não elimina a necessidade de construir um negócio economicamente sustentável.

Educação para enfrentar o racismo

Se Fernanda encontrou no sistema financeiro um problema a enfrentar, Janine Rodrigues escolheu a educação.

Educadora, escritora e fundadora da Piraporiando, Janine desenvolve projetos de educação para as relações étnico-raciais, trabalhando temas como educação antirracista, diversidade, equidade de gênero e combate ao preconceito.

Para ela, a diversidade precisa fazer parte da formação desde a infância.

A lógica é simples: quanto maior o contato com diferentes histórias, culturas e perspectivas, menor o espaço para que preconceitos sejam tratados como algo natural.

“Se eu entendo que você tem a sua cultura, a sua conjuntura e subjetividade enquanto indivíduo, mais eu vejo que você é tão importante quanto eu.”

A Piraporiando leva essa discussão para escolas, educadores, estudantes, famílias e organizações, transformando educação e cultura em instrumentos de enfrentamento ao racismo.

Janine também propõe uma reflexão sobre o próprio significado de representatividade.

Em um país em que mais da metade da população é negra, colocar uma única pessoa negra em determinado espaço não significa necessariamente que exista diversidade.

Por isso, ela prefere falar também em pluralidade e proporcionalidade.

“Em um país com 56% da população negra, ter só uma pessoa representando toda essa população basta? Não basta. A gente tem que falar de proporcionalidade.”

A discussão desloca o foco da presença simbólica para a participação efetiva de pessoas negras nos diferentes espaços da sociedade, inclusive naqueles em que decisões são tomadas.

Acessibilidade que também gera trabalho e renda

Jéssica Cardoso encontrou outra lacuna.

Depois de trabalhar como assistente social e conhecer de perto as barreiras enfrentadas por diferentes grupos sociais, criou a InterPrêta, empresa de Florianópolis formada por mulheres pretas e voltada à acessibilidade.

A empresa conecta organizações à comunidade surda por meio de serviços como tradução e interpretação em Libras, audiodescrição, capacitação e consultoria.

A solução combina dois objetivos: ampliar a acessibilidade para pessoas surdas e, ao mesmo tempo, gerar oportunidades profissionais para mulheres pretas.

A própria trajetória de Jéssica influenciou a criação do negócio.

“Enquanto mulher preta, as dificuldades se ampliam muito mais. Foi uma inserção bem complicada e difícil, de olhar para uma mulher preta e ver ela à frente de um negócio.”

Empreender significou enfrentar não apenas as dificuldades comuns à criação de uma empresa, mas também expectativas sociais sobre quem costuma ocupar posições de liderança.

Para Jéssica, reconhecer-se como mulher preta e perceber a potência das pessoas ao seu redor transformou uma experiência marcada pelo racismo em propósito.

“Foi só me reconhecendo enquanto mulher preta, reconhecendo a minha potência e a das pessoas que estão ao meu redor, que tudo isso se transformou num grande propósito de vida.”

Quem cria as soluções também importa

As histórias de Fernanda, Janine e Jéssica apontam para uma questão que vai além dos três negócios.

Quem participa da criação de produtos, serviços e políticas influencia os problemas que serão percebidos e as soluções que serão desenvolvidas.

Fernanda aborda diretamente essa questão em Inovar é um Parto:

“O mundo vem sendo solucionado pelas mesmas pessoas que sentam numa mesa gigante de reunião para tomar o mesmo tipo de decisão e trazer as mesmas soluções.”

Para ela, inovação também depende de diversidade.

Pessoas com diferentes origens, raças, gêneros e histórias enxergam problemas diferentes e podem propor respostas que dificilmente surgiriam em grupos formados sempre pelos mesmos perfis.

Essa perspectiva ajuda a explicar por que questões historicamente negligenciadas podem se transformar em oportunidades de inovação quando outras pessoas passam a ocupar o lugar de quem cria e decide.

Da experiência pessoal ao negócio de impacto

Conta Black, Piraporiando e InterPrêta atuam em áreas muito diferentes: serviços financeiros, educação e acessibilidade.

Mas as três iniciativas partem de problemas concretos vividos ou observados por suas fundadoras.

Fernanda trabalha para ampliar o acesso a serviços financeiros e oportunidades econômicas. Janine usa a educação para enfrentar preconceitos e promover relações étnico-raciais mais equitativas. Jéssica conecta acessibilidade à geração de trabalho e renda para mulheres pretas.

As três trajetórias mostram que experiências de exclusão também podem revelar problemas que o mercado ainda não conseguiu resolver.

Isso não diminui a violência do racismo nem transforma desigualdade em uma narrativa romântica sobre empreendedorismo. Mostra, porém, que pessoas historicamente afastadas dos espaços de decisão podem identificar demandas, criar soluções e construir novos mercados quando encontram condições para colocar suas ideias em prática.

Para Janine, esse movimento já está em curso:

“O verdadeiro empoderamento dessas ditas minorias é um caminho sem volta, não tem mais como retroceder.”

E completa:

“A gente tem pressa. Eu tenho pressa.”

Fernanda Ribeiro em Inovar é um Parto

Fernanda Ribeiro é cofundadora e CEO da Conta Black e uma das personagens de Inovar é um Parto, documentário dirigido por Patricia Travassos e produzido pela Prosa Press.

No filme, sua história amplia a discussão sobre empreendedorismo feminino ao mostrar como racismo, acesso ao capital e baixa diversidade nos espaços de decisão também interferem na capacidade de transformar uma ideia em negócio.

Sua participação ajuda a colocar uma pergunta no centro do documentário: se inovação significa encontrar novas soluções para problemas reais, quantas soluções deixam de existir quando determinados grupos continuam afastados dos recursos e dos lugares onde as decisões são tomadas?