As trajetórias de Vanessa Pessoa, fundadora da Inovenow, e Dani Junco, fundadora da B2Mamy, mostram como redes de colaboração podem ampliar o acesso a conhecimento, negócios e oportunidades para quem empreende.
Construir uma empresa exige mais do que uma boa ideia.
É preciso entender o mercado, testar soluções, encontrar clientes, formar uma equipe, buscar recursos e aprender rapidamente com os erros. Para quem está começando, muitas dessas respostas não estão disponíveis em livros ou cursos. Elas surgem da experiência e da troca com outras pessoas que enfrentam desafios semelhantes.
É nesse espaço que as comunidades de empreendedorismo ganharam importância.
Elas aproximam empreendedores, investidores, empresas, universidades, aceleradoras e instituições de apoio. Criam ambientes nos quais conhecimento e experiências circulam e novas relações profissionais podem surgir.
As trajetórias de Vanessa Pessoa, fundadora da Inovenow, e Dani Junco, fundadora da B2Mamy, mostram duas maneiras diferentes de construir essas redes e transformá-las em oportunidades.
Quando a rede se transforma em oportunidade
Empreender costuma envolver decisões para as quais não existe uma resposta pronta.
Como saber se uma ideia tem mercado? Como encontrar os primeiros clientes? Onde buscar investimento? Quando é hora de mudar o produto? Como conhecer alguém que já enfrentou um problema semelhante?
As comunidades ajudam a responder parte dessas perguntas.
Elas não eliminam os riscos de empreender, mas permitem que experiências sejam compartilhadas e que conexões aconteçam.
Para quem está longe dos principais centros de negócios e investimento, essa possibilidade pode ser ainda mais relevante.
Vanessa Pessoa e o desafio de empreender fora dos grandes centros
Vanessa Pessoa entrou no ecossistema de inovação e startups a partir da Paraíba.
Uma das experiências importantes dessa trajetória foi sua participação no Startup Weekend, iniciativa que reúne pessoas interessadas em transformar ideias em projetos e negócios.
O contato com outros empreendedores mostrou a Vanessa a importância das conexões para quem está construindo uma empresa.
“Por mais solitário que seja o empreender, existe também muita gente nessa jornada e essas conexões são super importantes pra gente aprender e se desenvolver.”
A partir dali, Vanessa passou a participar de programas de desenvolvimento de startups e a testar suas próprias ideias de negócio.
Uma dessas experiências foi a criação de um aplicativo de delivery de bebidas, desenvolvido depois de sua participação em um programa de pré-aceleração na Paraíba.
O negócio não avançou, mas o processo de testar hipóteses, validar uma ideia e entender o mercado tornou-se parte importante de sua formação como empreendedora.
A distância também afeta as oportunidades
A experiência de Vanessa revelou outro problema: o ecossistema de startups não oferece as mesmas oportunidades em todos os lugares.
Investidores, aceleradoras, eventos e profissionais especializados historicamente estiveram mais concentrados nos grandes centros.
E o mercado de startups depende muito de relações.
“Estar fora do eixo gera alguns níveis de dificuldade especialmente em relação ao acesso ao investimento, já que o mercado de startup é muito baseado em networking.”
Uma indicação pode abrir a porta de um fundo de investimento. Uma conversa pode apresentar um possível sócio. Outro empreendedor pode indicar um programa de aceleração ou evitar que alguém repita um erro que já cometeu.
Quando essas redes estão distantes, empreender pode se tornar mais difícil.
As comunidades digitais e o fortalecimento de ecossistemas regionais ajudam a diminuir parte dessa distância.
Inovenow e a descentralização do conhecimento
Foi nesse contexto que Vanessa criou a Inovenow, fundada em 2018.
A iniciativa nasceu ligada à educação e à inovação e evoluiu ao longo dos anos. Hoje, a Inovenow desenvolve programas de inovação, educação corporativa, desenvolvimento de startups e projetos voltados à transformação de organizações e territórios.
A empresa informa já ter impactado mais de 10 mil pessoas.
Vanessa continua à frente da Inovenow como CEO e mantém atuação no ecossistema de inovação da Paraíba.
Existe uma inversão interessante nessa trajetória.
No início, Vanessa procurava comunidades que pudessem ajudá-la a aprender, criar conexões e desenvolver seus projetos.
Depois, passou a participar da construção de ambientes que permitem que outras pessoas façam esse mesmo percurso.
Dani Junco e a comunidade como ponto de partida
A trajetória de Dani Junco mostra outro papel que uma comunidade pode desempenhar.
No caso da B2Mamy, a rede não apareceu depois da criação do negócio.
Ela veio antes.
Após a maternidade, Dani percebeu como mulheres e mães enfrentavam desafios específicos para conciliar carreira, empreendedorismo, maternidade e vida pessoal.
Decidiu usar as redes sociais para convidar algumas mulheres para uma conversa.
Esperava cerca de dez participantes.
Apareceram 80.
O encontro mostrou que uma experiência aparentemente individual era compartilhada por muitas outras mulheres.
Ali estava a semente da B2Mamy.
De um encontro entre mães a um ecossistema
Fundada em 2016, a B2Mamy cresceu a partir dessa primeira comunidade.
Hoje, a organização reúne iniciativas de educação, networking, empreendedorismo, desenvolvimento profissional, eventos e conexão entre mulheres, empresas e o ecossistema de inovação.
A B2Mamy informa ter impactado mais de 200 mil pessoas.
A organização também desenvolve programas voltados a startups lideradas por mulheres e mães, ajudando empreendedoras a desenvolver negócios e ampliar suas conexões.
O que começou como uma conversa entre mulheres com experiências semelhantes transformou-se, assim, em um ecossistema.
A próxima cliente pode estar na comunidade
Para Dani, uma das forças dessas redes está justamente na diversidade das relações que podem surgir.
“Somos uma rede verdadeiramente plural. Então, você nunca sabe onde está sua próxima investidora ou sua próxima sócia ou sua próxima cliente.”
Essa frase ajuda a explicar por que uma comunidade pode ter valor econômico além de sua função de apoio e troca.
Uma participante pode encontrar uma cliente.
Outra pode conhecer uma futura sócia.
Uma empreendedora pode chegar a uma investidora.
Uma profissional pode descobrir uma oportunidade de trabalho.
O valor da comunidade está também na quantidade e na diversidade de conexões que ela torna possíveis.
Comunidade também pode ser infraestrutura de negócios
Isso não significa que todos dentro de uma comunidade tenham os mesmos interesses.
Empresas competem. Empreendedores disputam clientes, talentos e investimentos.
Mas competição e colaboração podem coexistir.
Boa parte dos desafios enfrentados por quem empreende é compartilhada: encontrar mercado para um produto, contratar pessoas, vender, captar recursos, administrar o crescimento ou lidar com os erros inevitáveis do percurso.
Compartilhar experiências sobre esses problemas não elimina a competição.
Pode tornar o ecossistema mais eficiente.
É nesse sentido que comunidades deixam de funcionar apenas como espaços de relacionamento e passam a constituir uma espécie de infraestrutura para o empreendedorismo.
Redes podem ampliar quem consegue empreender
As histórias de Vanessa Pessoa e Dani Junco partem de lugares diferentes.
Vanessa encontrou nas comunidades uma maneira de acessar conhecimento e conexões mesmo estando distante dos principais centros do ecossistema brasileiro de startups. Depois, transformou essa experiência em parte de sua própria atuação empreendedora.
Dani percebeu que mulheres vivendo desafios semelhantes poderiam se fortalecer ao criar uma rede. Essa comunidade acabou se transformando na base da B2Mamy.
Nos dois casos, as conexões deixaram de ser apenas consequência de empreender.
Elas se tornaram parte do processo de construção dos negócios.
Comunidades não substituem uma boa ideia, capacidade de execução, clientes ou capital. Mas podem ajudar empreendedores a encontrar conhecimento, pessoas e oportunidades que dificilmente encontrariam sozinhos.
Em um ambiente marcado pela incerteza, ter acesso a uma rede pode encurtar caminhos e ampliar as possibilidades de transformar uma ideia em negócio.
Dani Junco em Inovar é um Parto
Dani Junco é fundadora e CEO da B2Mamy e uma das personagens de Inovar é um Parto, documentário dirigido por Patricia Travassos e produzido pela Prosa Press.
Sua trajetória acrescenta ao filme uma dimensão importante do empreendedorismo feminino: muitas das barreiras enfrentadas pelas mulheres não precisam ser resolvidas individualmente.
Ao aproximar mães, empreendedoras, profissionais, empresas e investidores, a B2Mamy transforma a construção de comunidade em uma ferramenta para gerar conhecimento, conexões e oportunidades.
A experiência de Dani mostra que, algumas vezes, o primeiro passo para criar um negócio não é encontrar uma solução sozinho.
É encontrar outras pessoas que compartilham o mesmo problema.



