Como a fundadora da Comida Invisível transformou a indignação com o desperdício de alimentos em uma plataforma que conecta doadores a quem precisa de comida.

De um lado, alimentos próprios para consumo são descartados. Do outro, milhões de pessoas ainda enfrentam dificuldades para ter acesso regular a uma alimentação adequada. Foi diante dessa contradição que Daniela Leite decidiu trocar a carreira na área jurídica pelo empreendedorismo de impacto e criar a Comida Invisível, plataforma que usa tecnologia para aproximar quem tem alimentos para doar de organizações e pessoas que podem aproveitá-los.

A ideia começou com uma situação cotidiana. Daniela procurava frutas para fazer geleia com o filho quando foi ao Ceagesp, em São Paulo, e se deparou com grandes quantidades de frutas e verduras descartadas.

“Eu fiquei absolutamente indignada porque, quando vi uma pilha de mamão, não via mamão. Via rostos de pessoas que podiam ter aquele alimento, e aquele alimento estava no lixo.”

A experiência levou Daniela a investigar o problema e conversar com representantes do Ceagesp sobre o destino dos alimentos. Aos poucos, surgiu a ideia que daria origem à Comida Invisível.

Desperdício de alimentos e insegurança alimentar

O problema que chamou a atenção de Daniela está longe de ser exclusivamente brasileiro. Segundo o Relatório do Índice de Desperdício de Alimentos 2024, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), mais de 1 bilhão de refeições são desperdiçadas diariamente nos domicílios ao redor do mundo. O desperdício de alimentos também tem impacto ambiental: estima-se que seja responsável por cerca de 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa.

No Brasil, a mensuração do desperdício ainda está avançando. O próprio relatório do PNUMA aponta que o país começou a desenvolver uma linha de base nacional para compreender melhor quanto e quais tipos de alimentos são descartados pelos domicílios.

Ao mesmo tempo, o Brasil avançou no combate à fome nos últimos anos. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o país voltou a registrar prevalência de subalimentação inferior a 2,5%. O avanço, porém, não significa que o problema da segurança alimentar esteja resolvido. O acesso a uma alimentação adequada e saudável e a redução do desperdício continuam sendo desafios importantes.

O “match” entre quem tem e quem precisa

Foi justamente na conexão entre esses dois lados que Daniela encontrou uma oportunidade.

“A gente podia juntar a fome à vontade de comer e dar match. Igual fazem esses aplicativos de paquera.”

Assim nasceu a Comida Invisível, iniciativa criada para conectar empresas, indústrias e outros doadores de alimentos próprios para consumo a organizações sociais e pessoas que podem aproveitá-los.

A tecnologia funciona como uma ponte. Quem tem alimentos disponíveis informa o que pode doar. Do outro lado, organizações cadastradas podem encontrar essas ofertas e viabilizar o aproveitamento dos produtos.

A proposta ataca dois problemas ao mesmo tempo: o desperdício de alimentos e a insegurança alimentar. Também contribui para reduzir os impactos ambientais associados à produção de alimentos que acabam descartados.

Do Direito ao empreendedorismo de impacto

A criação da Comida Invisível também provocou uma transformação na trajetória profissional de Daniela. Ela deixou uma carreira consolidada como diretora jurídica para se dedicar ao negócio de impacto social.

A mudança significou abrir mão de parte da estabilidade financeira que tinha anteriormente. Em contrapartida, Daniela encontrou uma relação diferente com o próprio trabalho.

“Às vezes eu olho e falo: era isso que eu tinha que fazer da minha vida mesmo.”

E completa:

“Eu encontrei talvez o meu propósito de existir nessa vida. Eu não posso fazer outra coisa que não seja isso. Me dá uma alegria enorme.”

Essa passagem da indignação à ação é uma das histórias retratadas no documentário Inovar é um Parto, dirigido por Patricia Travassos e produzido pela Prosa Press. O filme acompanha mulheres que transformaram problemas sociais muitas vezes ignorados em startups e iniciativas de impacto.

Como participar da Comida Invisível

Pessoas e empresas interessadas em doar alimentos podem se cadastrar na plataforma da Comida Invisível. Os produtos oferecidos precisam estar próprios para consumo e atender às condições de segurança alimentar e às boas práticas sanitárias.

Organizações interessadas em receber doações também podem se cadastrar para encontrar alimentos disponíveis. A iniciativa oferece ainda conteúdos relacionados ao aproveitamento de alimentos e ao combate ao desperdício.

Conheça a Comida Invisível

Daniela Leite em Inovar é um Parto

Daniela Leite é fundadora da Comida Invisível e uma das personagens de Inovar é um Parto. No documentário, sua história ajuda a mostrar como um problema social concreto pode dar origem a uma solução que combina tecnologia, sustentabilidade e impacto social.